quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Quando há tantos blocos de ausência - Escrevo-me.
Quando há tanto vazio em falar - Rabisco-me.
Quando há tanta intenção em falsear - Apago-me.
Quando há tanta frieza no sentir - Contorno-me.
Quando existe tanto espaço em branco - Rasgo a página.
Panapanãs-marinhas.

Ando sem tempo para rimas.
Perdi-me num miolo de mar.
No pontinho de abismo em que me perco,
Circundam-me potes de ouro e vastidões de azul bem claro.
O passado brincando ciranda faz descasular as borboletas
E elas voam, vivem e voltam encasular...
Exceto quando batem no para-brisa de um coletivo inesperado.
Soubesse da pequenez de ser grande
Glorificaria a inocência com brotos de louros na infância
E se soubesse a verminose da úmbria de nossa falange
Curaria com unguentos pueris toda ferida de ganância

Defunto vivente, deixei-me morrer e nada fiz
Corroeram-me os parasitas a mastigar e cuspir meus planos
Um engasgado e esganado com os brônquios repletos de giz
Mais um assassínio suicida com o fadário abastecido de anos.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Bureau

- Sentado, Coutinho! 
Meu assistente parecia uma máquina de lamber selos. Não fossem minhas ordens, toda aquela repartição estaria abarrotada de inúteis - como se os papéis amarelados não ocupassem todo o espaço! Lourdes prendia fitas no ventilador, o Pereira picotava quadrados nos rascunhos e Abigail...Ah, Abigail tirava grampos como nenhuma outra mulher!
Foi quando o Fininho engasgou com uma Carmem Miranda - Incompetente! Não fosse o nó desajustado de minha gravata, teria perdido alguns minutos ralhando o menino. Éramos engrenagens, engajados em prol do interesse público. Estávamos treinados, preparados, concursados para servir à municipalidade. Só uma dúvida, vez ou outra, tirava nosso foco: uma ou duas colheres de açucar nesse café?

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Soneto triste demais




Miséria da alma é tristeza do mundo,
avareza semeada em terreno fecundo.
Tantos homens desolados em eterno suplício;
Outros, poucos, isolados, alimentando seu vício.

Para matar a fome daqueles que não comem,
Já não partilha-se o pão, mata-se o homem.
E, mesmo na dor, não há tempo para choro.
Tempo é dinheiro - que não aceita desaforo.

Pois humanidade caminha numa linha qualquer
ciclo cruel que vai da poeira
à barriga pesada de uma mulher.

E quando, Senhor, mudará a nossa triste sorte?
Quando não houver sequer um suspiro,
e findarem-se os sons num acalento de morte.

"Algumas pessoas nasceram pra tentar afundar-nos. Contudo, somos barcos velozes nesse oceano chamado vida, inflados pelos ventos daqueles que verdadeiramente nos amam. E sigo assim, conquistador e aventureiro, sem me deixar naufragar."
Eram três pássaros empoleirados na tensão
um acima, dois abaixo.
Um - embaixo - resolveu subir.
Dois em cima, um por baixo.
Engraçado que antes não havia solidão
Eram três pássaros empoleirados na tensão.
Mas, aquele que perdeu a companhia...
De tristeza pia, pia e pia.

Os pássaros que deixei voar, preciso parar de caçá-los.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Eu não sou eu, nem sou outro. Sou qualquer coisa de intermédio". Quantas pessoas já me perderam tentando me definir! Quantas outras já me ganharam por garimpar tesouros meus que desconhecia. Tenho sorrisos salgados e lágrimas de confeito. Tenho uma vontade desesperada de ter tudo e não me prender a nada. De ser tudo que não seja nada. E voltar ao nada para reconstruir tudo. Um outro tudo, o mesmo nada.
Não sou fênix pois não sou pássaro, pois não creio em mitos. Sou cinza, talvez, que voa ao vento, que vira pó, que vira chão, que vira vida, que vira tempo...e não vira nada. Mas, participa em tudo e constrói o mundo.
Não sei muita coisa da vida, ainda sou meio torto, o Carlos gauche na vida. Uma coisa, contudo, aprendi: o riso, o brinde, o cumprimento, são muito mais materiais que a felicidade. Nem sabemos se a felicidade existe. Que haja verdade no humor, que haja sinceridade no olhar, que exista sempre uma boa piada para ser contada. Que exista sempre uma roda de amigos e que um deles fique um pouco bêbado de vez em quando. Que existam almoços em família. Não creio na somática do viver, não acredito em acerto de contas, meu credo é do tempo. Acredito em momentos...acredito que podemos construir bons momentos.
 Pensamentos meus:

  • O homem nasceu para conquistar. Possuir, pelas simples conexões naturais, nada significa. É sua capacidade de de entalhar pedra, e não a própria matéria-prima, que o define um mestre de jóias. Aquele que abandona a peleja nunca terá do que se assenhorar, por mais que a vida lhe tenha dado de início.
  •  É preciso dar valor no tempo que o Tempo tem. O Tempo que cura, o Tempo que acalma, o que revela, até aquele que faz sofrer. Ele é o elemento presente em tudo que existe: tudo tem seu tempo e muito pouco tempo se tem.
Lembro quando dançamos, no breu, a La Vie En Rose do Louis. Lembro-me, ainda, do cheiro do teu cabelo, do nosso toque, da nossa pele. Já nem sabia o que era meu, o que era teu. Todos os elementos constituíam a mulher perfeita. Acesas as luzes, materializava-se o sonho num corpo de mulher.
Ah, quando você chegar! Comprei lua-de-mel, meu amor, deixei sobre a mesa. Tire o sapato, belisque uma...Quem sabe me encontras na cozinha, ou então tomando banho. Abra a porta devagar, me pegue de surpresa. Deixe minhas lágrimas rolarem misturadas na espuma, deixe meu sorriso estranhar o gosto do xampú. Só não desfaça essa névoa, essa cortina vaporosa que eu chamo de lembrança, na qual sempre voltas pra casa.
Quem te disse que não sinto amordaçado o peito? O que te faz pensar que não sofro, que não morro nas noites? Tenho meu riso e este pesar companheiros; como as aves tem pernas e asas, e voam altivas e ciscam de cabeças baixas.
Ah, que pena tenho de ti! Tens um coração tão cinza, de cinzas que o amor não consumiu. Te entrego palavras num embrulho de versos e fitas de rima. É pra te fazer sorrir e colorir teu coração! É quando assopras o borralho, amada e maldita, e me deixas aqui com o presente na mão.