Andava pela rua, ia ao encontro Dela. Trajava flores e vestia perfume. Sempre fizera assim, comprava tulipas, inofensivas tulipas amarelas. Ele gostava da segurança que elas transmitiam. Quem não gosta de tulipas? Ofereceria flores comportadas, pouco fragrantes. Deixaria que Ela lhe ensinasse o cheiro das coisas. Em troca receberia espinhos. Mas dizia a si mesmo que espinhos eram semi-rosas. Rosas são apenas rosas, pétala sobre pétala, uma dama de batom. Ela era apenas ela. Realmente deseja que lhe tivesse amor. Talvez isso ela até tivesse. Talvez até lhe amasse, mas não tinha flores para dar. Dói receber espinhos.
Ele sou eu. Cansei da subjetividade. Troque flores por afeto, troque rosas por ousadia. Só não queira saber o significado dos espinhos. Não é fácil descobrir que espinhos não são semi-rosas.Não preciso continuar com essa mentira. Saibam que hoje sou triste.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Nota do meu falecimento
Uma pedra que desce
pela Língua
caindo
Garganta
caindo
Traquéia
caindo
Pulmão
e ainda a pedra
(Suspiro)
correndo
Meus vasos
correndo
Minhas veias
parando
Coração
parada
Coração
parada
Coração
e ainda há pedra
Agora retorna
rasgando
sem pressa
rasgando
a pedra
rasgando
(Espasmo)
pela Artéria
sufocando
Pescoço
sufucando
Alma
sufocando
Meus olhos
fechando
Uma faca
sem corte
Uma faca
sem corte
Uma faca
e a morte
Sou todo sangue
e a pedra.
Sou somente eu
e há pedra.
pela Língua
caindo
Garganta
caindo
Traquéia
caindo
Pulmão
e ainda a pedra
(Suspiro)
correndo
Meus vasos
correndo
Minhas veias
parando
Coração
parada
Coração
parada
Coração
e ainda há pedra
Agora retorna
rasgando
sem pressa
rasgando
a pedra
rasgando
(Espasmo)
pela Artéria
sufocando
Pescoço
sufucando
Alma
sufocando
Meus olhos
fechando
Uma faca
sem corte
Uma faca
sem corte
Uma faca
e a morte
Sou todo sangue
e a pedra.
Sou somente eu
e há pedra.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Parto
Suba em uma ponte
Quando lá estiveres,
não ouse pôr os olhos no horizonte.
Assim poderias fazer se trouxesses:
fruta, mulher e filhos.
Mas estás sozinho,
e na solidão tens a companhia da angústia.
Então não imagines futuro
nem beijos entre água e nuvens.
Põe teus olhos nas pedras.
Põe teus olhos nos prismas de pomes falésias.
Põe no barulho das águas,
tua vontade de pular.
Apressa para chamar tua coragem.
Não esperes o tempo de pensar,
porque o tempo não é sábio,
é apenas velho, velho e tosco.
E o pensamento te pesará,
e de peso já te basta o corpo, a pedra.
Transcende a barreira que te deixa seguro.
Seguro como querem os moralistas.
Agora que já sentes teu espírito no ar,
te afastas e volta para casa
que te esperam filhos, mulher e fruta.
Dá só tua carcaça nas pedras
que dela nascerá a minha poesia.
Quando lá estiveres,
não ouse pôr os olhos no horizonte.
Assim poderias fazer se trouxesses:
fruta, mulher e filhos.
Mas estás sozinho,
e na solidão tens a companhia da angústia.
Então não imagines futuro
nem beijos entre água e nuvens.
Põe teus olhos nas pedras.
Põe teus olhos nos prismas de pomes falésias.
Põe no barulho das águas,
tua vontade de pular.
Apressa para chamar tua coragem.
Não esperes o tempo de pensar,
porque o tempo não é sábio,
é apenas velho, velho e tosco.
E o pensamento te pesará,
e de peso já te basta o corpo, a pedra.
Transcende a barreira que te deixa seguro.
Seguro como querem os moralistas.
Agora que já sentes teu espírito no ar,
te afastas e volta para casa
que te esperam filhos, mulher e fruta.
Dá só tua carcaça nas pedras
que dela nascerá a minha poesia.
De tudo na vida...
De todo momento que passou, de cada simples suspiro ou eloqüentes gritos de euforia, pouco sobra que não seja poeira de pensamento. Talvez sobre as noites de amor, porque é esse sentimento, o qual nem temos a certeza de ser anjo ou mostro, que se faz essência da vida. Pouco importa se sobra o amor. Amor é alcool volátil, doce, algo de que se pode usufruir na eternidade da ausência do corpo. Mas não me importa a eternidade. Importa a você? Não. A eternidade não é pra se compreender, assim como o amor. Não quero saber o que há de me sustentar quando já sou morto e a morte já me é fraterna. Quero saber o que sobra ainda no fim da vida. Bem naquele último momento, em que a dor é tão forte quanto a dor sincera da criança que perde seu cão.Descobri o que sobra ao fim da vida. É pedra torta, mas ainda assim pedra preciosa. Não é grande o suficiente para te esmagar o peito e tornar breve o teu fim. Não é areia que para que possas engolir e mentir para si mesmo que ela nunca existiu. É de tamanho imaginável, quase uma ameixa. Nem tão doce, nem tão amarga. Sabemos que não é uma pedra de fato. Digo que é a saudade, mas pouco importava explicitá-la. Todo mundo a de ter essa pedra consigo, e reconhecê-la uma vez na vida. Lembre-se: toda vez que a saudade te obstruir a garganta então morrerás em breve. O mais triste de tudo é que morrerás mais de uma vez.Estranho que de todos os sentimentos aos quais o homem inutilmente tenta dar nomes, só a saudade nos acompanha no fim da vida. E só o amor depois dela. O sentir falta é a despedida o final da apresentação é a única coisa que importa. Nenhum ator, por maior que seja, faz questão dese apresentar ao público antes da peça. Quando se fecha a cortina, o mundo é outro, e o grande astro contempla o público, o teatro, o espelho. Assim é a saudade. A cortina que se abre para contemplarmos uma vida. A vida que já não podemos mais representar.Deixamos uma vida quando já não podemos beijar a mulher que amamos. E nunca amarei outra mulher. Depois dela, morrerei e só restaurá saudade. A ameixa agora é doce. Tem o gosto do veludo dos pêssegos, dos lábios. Também deixamos a vida quando perdemos os amigos. Amarga ameixa que têm gosto das barras de ferro, das lágrimas de tristeza. E dessas vezes que sutraimo-nos do viver, eis a saudade. Se já não pode viver, que se reviva falsamente na saudade. E ela se faz da lembrança. É metamórfica, pode ser pêssego e ser lábio. Pode ser lágrima se quizer. E pode ser o sorvete, o parque, e pode ser a mãe, a família. Em sua maior expressão, tudo pode se tornar a saudade. Só não se torna real.Tenho saudade. Tanta saudade que poderia jurar que já morri todas as mortes do mundo.
Beijo
Nenhuma coisa é bela por si só. Tudo precisa completar-se com algo diferente. E não há beleza maior que o encontro da lágrima com o sorriso. Junta-se então o sorriso, a lágrima e duas bocas perdidamente apaixonadas. Não há no mundo matiz tão profunda, tão maravilhosa. Escândalo dos olhos, faz negar a beleza de todas as coisas que viveram até então. E tratava-se apenas de um beijo, de amantes que não se podiam tocar já há algum tempo.O que é o mundo se não o eterno enlace de lábios perdidos? Chego à conclusão de que tudo na vida tem sua origem no beijo. Nada mais somos que o eterno beijar de carbonos, hidrogênios e oxigênios. Ninguém pode dizer que a vida não é bela. Somos milhares de casos amorosos contidos num mesmo recipiente. Lembra do beijo da namorada? Gosto de vinho novo, instigante e imaturo. Beija a boca da esposa. É vinho encorpado, repleto dos tons suaves de uma vida em dois. Lembra do beijo que não foi real. Das noites de sonhos, da mulher perfeita, que te beijava a distância e você tentava engolir seus acenos dizendo ''eu te amo''. Agora deixa que eu te beije a memória. Guarda essas palavras, porque ainda terás tanto pra conhecer na vida, e tua boca vai tocar tantas texturas que possivelmente te esquecerás de mim.
O Teto do Céu e o Piso de Nuvens
Existia uma praia e uma criança sentada na areia. A criança era eu. A praia talvez fosse ilusão. Tinha, nas mãos pequenas e lívidas de inocência, um bom punhado de areia branca. Dediquei minhas mãos e outros tantos grãos de areia ao trabalho árduo de construir um castelo. O vento me ensinava como modelar muros, torres e abóbadas. Me ensinava a modelar a experiência e o caráter.
Demorei em torno de uma década para terminar meu projeto. Era forte o castelo, bonito e rico em detalhes. Alguns pontos pareciam tortos e algumas rachaduras eram visíveis, tudo para revelar a humanidade de seu construtor. Mas era um castelo bem forte. Poderia-se jurar que ali habitavam reis e rainhas, uma corte inteira. Damas alvas vestindo conchas do mar. Homens de sal e sílica montados em seus cavalos-marinhos. Era, ainda, um vivo castelo.
Levantei-me do chão de praia, levei uma mão ao encontro da outra. Beijaram-se as palmas, já maiores e nem tão puras. Era sinal de trabalho cumprido. Mas somos construtores e nada sabemos fazer que não seja construir. Caminhei até o mar. Não sei ao certo se fui mais eu quem o encontrou, ou mais as ondas que buscaram meus pés. Dobrei meu tronco e, de cabeça baixa, fui construindo um canal que ligava as aguas revoltosas ao castelo. Em pouco tempo, tudo fora tragado, até mesmo o telhado da torre mais alta.Não devemos ter o mar como inimigo. Seu trabalho é apenas dar novos projetos a velhos engenheiros. Quando sem o mar, aí é que padecemos.
Quando findados todos os edifícios, tive saudade dos seus prováveis habitantes. Chorava pela ausência do rei e sua barba, da rainha e sua beleza escondida em rugas de ternura. Mas o rei continuaria seu governo em algum lugar do oceano. A rainha ainda seria bela, mesmo diluída pelos sete mares. Percebi que minhas lágrimas eram também água do mar. Findei meu choro e o vento secou as partes mais salientes da minha face. Elas revelavam, logo abaixo, um sorriso sincero. Começaria tudo outra vez.
Fui andando pela praia, procurando um lugar que fosse bom piso para meus sonhos. Tive ambição de construir castelos maiores, a simplicidade de construir apenas alguns cômodos. O vento sempre me ajudou a fazê-los. A fazer a mim mesmo. Ainda ergo sonhos para depois destruí-los. Essa mutabilidade da vida nos faz evoluir, aprender novas técnicas. Só espero que um dia, já cansado dessa minha profissão, venha o mar me buscar. Encontrarei o rei, a rainha e toda a corte. Encontrarei tudo que um dia pude lapidar e tudo que me fez tão feliz.
Ando pela praia e sento quando possível. Caminho pela vida e me traduzo em sentimentos a cada instante que passa.
Demorei em torno de uma década para terminar meu projeto. Era forte o castelo, bonito e rico em detalhes. Alguns pontos pareciam tortos e algumas rachaduras eram visíveis, tudo para revelar a humanidade de seu construtor. Mas era um castelo bem forte. Poderia-se jurar que ali habitavam reis e rainhas, uma corte inteira. Damas alvas vestindo conchas do mar. Homens de sal e sílica montados em seus cavalos-marinhos. Era, ainda, um vivo castelo.
Levantei-me do chão de praia, levei uma mão ao encontro da outra. Beijaram-se as palmas, já maiores e nem tão puras. Era sinal de trabalho cumprido. Mas somos construtores e nada sabemos fazer que não seja construir. Caminhei até o mar. Não sei ao certo se fui mais eu quem o encontrou, ou mais as ondas que buscaram meus pés. Dobrei meu tronco e, de cabeça baixa, fui construindo um canal que ligava as aguas revoltosas ao castelo. Em pouco tempo, tudo fora tragado, até mesmo o telhado da torre mais alta.Não devemos ter o mar como inimigo. Seu trabalho é apenas dar novos projetos a velhos engenheiros. Quando sem o mar, aí é que padecemos.
Quando findados todos os edifícios, tive saudade dos seus prováveis habitantes. Chorava pela ausência do rei e sua barba, da rainha e sua beleza escondida em rugas de ternura. Mas o rei continuaria seu governo em algum lugar do oceano. A rainha ainda seria bela, mesmo diluída pelos sete mares. Percebi que minhas lágrimas eram também água do mar. Findei meu choro e o vento secou as partes mais salientes da minha face. Elas revelavam, logo abaixo, um sorriso sincero. Começaria tudo outra vez.
Fui andando pela praia, procurando um lugar que fosse bom piso para meus sonhos. Tive ambição de construir castelos maiores, a simplicidade de construir apenas alguns cômodos. O vento sempre me ajudou a fazê-los. A fazer a mim mesmo. Ainda ergo sonhos para depois destruí-los. Essa mutabilidade da vida nos faz evoluir, aprender novas técnicas. Só espero que um dia, já cansado dessa minha profissão, venha o mar me buscar. Encontrarei o rei, a rainha e toda a corte. Encontrarei tudo que um dia pude lapidar e tudo que me fez tão feliz.
Ando pela praia e sento quando possível. Caminho pela vida e me traduzo em sentimentos a cada instante que passa.
Finalidade
Bom, esse blog é para que eu possa postar aquilo que eu escrevo. Não sou escritor, qualquer um vai perceber quando ler minhas palavras. Só gosto de confessar ao papel aquilo que se passa em algum lugar do meu consciente semi-inconsciente!
Assinar:
Postagens (Atom)
