terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Parto

Suba em uma ponte
Quando lá estiveres,
não ouse pôr os olhos no horizonte.
Assim poderias fazer se trouxesses:
fruta, mulher e filhos.
Mas estás sozinho,
e na solidão tens a companhia da angústia.
Então não imagines futuro
nem beijos entre água e nuvens.
Põe teus olhos nas pedras.
Põe teus olhos nos prismas de pomes falésias.
Põe no barulho das águas,
tua vontade de pular.
Apressa para chamar tua coragem.
Não esperes o tempo de pensar,
porque o tempo não é sábio,
é apenas velho, velho e tosco.
E o pensamento te pesará,
e de peso já te basta o corpo, a pedra.
Transcende a barreira que te deixa seguro.
Seguro como querem os moralistas.
Agora que já sentes teu espírito no ar,
te afastas e volta para casa
que te esperam filhos, mulher e fruta.
Dá só tua carcaça nas pedras
que dela nascerá a minha poesia.

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