Só me permito mergulhar nessa paixão pelo oceano. Eu que há muito navego compreendo que há mares mais vastos que todos os amores do mundo. Ainda que eu me lance em aventuras nessas águas, que faça içar às velas sempre e com afinco, que timoneie com destreza e me afeiçoe à nau, não sou marinheiro.
Pois que não sou servente da barca, ou oficial da marinha. Sou antes este esposo voluntário das águas, é o gosto do sal mais aprazível aos meus lábios que a doçura dos beijos. É a brisa marítima que me beija salobra todas as manhãs, e todas as noites, meu regozijo.
Não tenho amante para escrever cartas, já não sinto a falta de tê-la. Nem sequer me apetece a comida dos portos, os jogos no cais e as mulheres na orla. Declaro-me todos os dias ao oceano através de um mergulhão, uma gaivota. Conto às aves sobre meus sentimentos e, radiantes, elas se atiram à superfície d'água para dizer do meu amor. O mar, grato pela mensagem do meu afeto, lhes retribui com peixes que enchem seus bicos.
Também o mar me alimenta. Também o mar me acaricia, as espumas do mar são minhas espumas. Converso com baleias, edifico corais, leões marinhos são meus animais domésticos, sem que eu tenha que domesticar-los. Essa única exigência me faz o pélago: tão vasto que sou e tão eterno, nada das minhas águas cerceie, restrinja. As águas nos exigem plena liberdade.
Me perguntam: habitas o mar? De pronto respondo:
- O mar é meu hábito!

