quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Para Re II

 SOU UMA PESSOA QUE SE ENFADONHA RAPIDAMENTE COM TUDO QUE NÃO ESTÁ AOS OLHOS, QUE NÃO SE PODE TOCAR. 

AINDA ASSIM, CONVERSAMOS MEIA HORA AO TELEFONE, TUDO PORQUE UM MACARRÃO SUICIDOU-SE NO CHÃO DA COZINHA.

ALI ESTAVA A BELEZA DA COISA, VEJAM. UMA MASSA QUALQUER, DESCOZIDA, ESTATELADA E DURA NA CERÂMICA. MAS ERA ELA QUEM ME CONTAVA. COMO SE GRANDE COISA MORRERA E, ELA, A CULPADA DO TERRÍVEL ASSASSÍNIO. FALAMOS DO SEU JEITO, SEM JEITO, E LOGO PUSEMO-NOS A DISCORRER SOBRE A RELAÇÃO. 

NOSSO AMOR É COMO UM QUEDA DE PALAVRAS. ELAS VERTEM NA ÂNSIA DE DIZER E ENCONTRAR TERMO CERTO PARA RELATAR A FOME DE ESTARMOS JUNTOS. QUEREMO-NOS COMER, SORVER E ABSORVER. QUEREMOS SENTIR AQUELE AMOR NAS ENTRANHAS. VOMITAR NAUSEANTES OS MESES DE SEPARAÇÃO. ENTÃO, ALIVIADOS, BEIJARMO-NOS.

 A DISTÂNCIA É LÉGUA SEM FIM, QUE PERCORREMOS ABASTECIDOS DA CERTEZA DE UM AMOR QUE ALIMENTA E NÃO SE ESGOTA. O PASSADO? É COMO UM MACARRÃO DESCOZIDO, DURO E SEM LUGAR À CEIA.


EU TE AMO, ELA DISSE. RESPONDI: AMO-TE DO TAMANHO DA NOSSA FOME. EIS QUE AMBOS DORMIRAM SATISFEITOS, DE ESTÔMAGO E CORAÇÃO REPLETOS.

Para Re

 CLAMAM MEU NOME

E IMPRESCÍNDEM DE MIM

COMO CHAMARÃO A MIM

AS TROMBETAS DO HADES.

NÃO SABEM QUE MEUS TÍMPANOS RESSOAM

 E MEUS OUVIDOS AUSCUTAM À CONVOCAÇÃO DELA?

 MEU TEMPO É UM VESTIDO CURTO. 

CABE-ME, MAS ME DEIXA QUASE DESCOBERTO. 

PORTANTO, AGORA, DELEITO-ME DELA.

 E DOS OLHARES DELA. 

E DAS VOZES QUE SAEM DO CORPO DELA.

AH! VEJA COMO DISCURSAM SEUS SEIOS.

 DIZEM: QUERES COLO?

 PREPARO-ME 

COMO SE PREPARA UM DEFUNTO PARA O ESQUIFE! 

QU'ISTO É BELO, POIS PR'ELA NÃO ME DEIXO SANGRAR.

 MEU DECUJO ENCONTRA NELA A PAZ ETERNA.

 MORTO PR'ESTE MUNDO, 

VIVO FELIZ COM ELA.

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

STELLA

 Anoitecer-me agora é tão triste

O alvorecer dos meus dias é tão pálido

Dar-me outro suspiro parece inválido

Pois sequer meu corpo permanece em riste


Eis que no céu desponta uma estrela

Que brilha e reluz com tons de ciano

Tomado de forças eu danço ao piano 

O firmamento é outro por simplesmente havê-la.


Céu, infinito teto celeste!

Que Luz fria e divina vem dela?

Esse Lumiar que agora me veste!


Faz-me lembrar da minha prequela

Um amor tenro, amor inconteste

Saudade que tenho, luminosa Stella!

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

 É certo que as coisas nascem com um aspecto derradeiro. Todo recém-nascido, a despeito de um sorriso pueril e uma boca coçosa de dentes, guarda no corpo uma pinta de morte. Uma marca de brasa na qual Deus queima formigas, como criança no parque. Digamos então que a morte é uma marca de nascença.

Ama-se demais e em verdade quão maior é essa certeza do fim. Os olhos que se cruzam são dois, esquerdo e direito. Um encerra o vime da lembrança infinita, do elo poético, da procura incansável. O outro carrega a cisma, a navalha e a sentença capital. O amor é sentença de morte daqueles há muito encarcerados,  que beijam e desejam o laço da forca. Amam mais e mais libertos os (ex)clausurados que, animados pela natural destruição das coisas, fogem do cativeiro rumo ao penhasco. E voam, verdadeiramente voam.



segunda-feira, 2 de maio de 2022

TRAMA

 A vida é emaranhado de filamentos

Viver nada mais é que tecer;

Morrer é desfazimento de costuras.

Por isso morre-se tanto,

Morre-se todos os dias,

E a vida segue, sempre, por um fio.

Os dias comuns chamar-se-iam

Panos de saco...

Malfadados, tronchos e  chatos

Que se passam ao chão 

Que esfarelam pelo uso e pelo emprego

Que não se contam mais quando manchados

Toda fibra será castigada.

Tantos dias, haja saco!

Ah, o sexo! É meter linha na agulha...

Até coser e bordar outra vida,

Com a mesma intenção de Penélope:

A de não tecer o último ponto.

É o bilro da arte feitor do rendado.

E o amor? Tece a lã.

Na mesma roca em que prepara o sudário.



segunda-feira, 28 de março de 2022

S.U.S - S.O.S


Socorro!

Minha dor é pouca

É física e pouca

Porque vejo a dor deles

E eles são muitos

Assim como é muita

A dor que eles sentem

Dor que é n'alma

Que nada acalma

Dor que é pobreza

É miséria, é política. 

Não entendo essa fila

Ambulatório lotado

De gentes que já morreram

Tão e muita é a dor deles

Que não é física

Talvez estejam aqui

Não pela dor que é muita

Talvez seja só para ouvir

No sistema de som

Lhes chamarem o nome

Algo pouco que lhes resta

Eu estou aqui porque tenho

Um quanto da dor que eles tem

E assim como eles, também, 

Nenhum plano de saúde,

Nem previsão de alta, 

Ou qualquer outra saída.



*Poema iniciado em abril de 2020. Concluído em março de 2022.