quarta-feira, 30 de outubro de 2024

 Chega o tempo de preferir o poer do sol, compor o fim do dia à noite mansa.

É o tempo dos amigos raros, dos destinos calmos, sagaz a idade avança.

Querer o aconchego dela, o jantar, a vela, o jazz, três passos de dança.

Não ser bicho noturno, nem matutino matuto, melhor aproveitar a tardança.

Saber do beijo preguiçoso que conta os dentes, sem a boca coçosa de criança.

Eis o novo vinho da vida: uma tardezinha púrpura entre a vizinhança.

O amor, audaz, com cor avessa à costumaz, pintou de lilás a esperança. 


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Catfishing: armadilha virtual.

 


         A população brasileira figura entre aquelas com maior tempo de conexão nos ambientes virtuais da internet. Sim, nós passamos mais tempo conectados do que países desenvolvidos e com melhores indicadores econômicos como, por exemplo, a Noruega. Quando olhamos para nossos indicativos de escolaridade, acesso e qualidade da educação, todavia, estamos bastante distantes das principais economias do mundo, amargando quase sempre as piores colocações em rankings da UNESCO e demais instituições voltadas à educação. Quando juntamos essas duas realidades, percebemos o quanto os ambientes virtuais são perigosos para uma população tão exposta e, ao mesmo tempo, tão vulnerável.
    Os golpes virtuais, principalmente em redes sociais, tornaram-se extremamente frequentes. Falar em segurança virtual nos anos 2000 envolvia principalmente criar instrumentos de defesa contra o ataque de vírus, malwares e spywares. Hoje, o comportamento do brasileiro nas redes sociais é o ponto crítico para que pessoas mal intencionadas possam “infectar” nossa privacidade, causar danos psicológicos irreversíveis e aplicar golpes financeiros. 

     É nesse contexto que se apresenta o Catfishing: uma prática de atrair e envolver emocionalmente usuários de redes sociais ou plataformas de relacionamentos através de perfis falsos, como um gatuno, para depois “fisgá-las”. Os objetivos dessa prática podem ser os mais diversos: obter vantagens financeiras, meios de extorsão ou deixar danos emocionais e psicológicos profundos. Pessoas comuns são levadas a acreditar no interesse amoroso de um modelo internacional, de uma atriz de televisão ou de um membro das forças armadas de um país distante.
        Para muitos pode parecer absurdo não reconhecer um perfil “fake” ou transferir dinheiro para quem não se conhece pessoalmente. Devemos considerar, contudo, tratar-se de uma população que não foi educada para o ambiente virtual, sem acesso a acompanhamento psicológico e suporte emocional. Golpes como o catfishing serão cada vez mais frequentes se não adotarmos uma política educacional adaptada aos novos comportamentos sociais em redes virtuais, bem como criar mecanismos de coerção, tipificação e penalização dessas práticas.
    As escolas e educadores precisam adaptar as grades curriculares e o conteúdo programático para lidar com o ambiente virtual desde os primeiros anos de escolarização. Também devemos considerar que o mundo contemporâneo - dada sua velocidade, liquidez das relações, pluralidade de conexões efêmeras -  propicia inseguranças emocionais e patologias psicológicas que alimentam a vulnerabilidade dos indivíduos em ambientes virtuais. Incentivar a família, empresas e espaços públicos ao acolhimento psicológico, através políticas públicas de valorização da saúde psicoafetiva, cria caminhos para que a carência e frustração da vida cotidiana não encontrem refúgio nos engodos e armadilhas virtuais.
      Ainda que as pessoas estejam menos vulneráveis, a longo prazo, também é necessário coibir e penalizar os agentes de tais atos. O anonimato não pode ser escusa para que práticas ilícitas não sejam investigadas e punidas. É preciso que provedores e as companhias que detém espaços virtuais e redes sociais atuem em conjunto com órgãos de investigação e persecução, tais quais a Polícia Federal e o Ministério Público, a fim de criar instrumentos de rastreio e identificação de quem comete tais delitos, bem como de produção de provas robustas que possam levar à condenação dos c . No âmbito jurídico, por mais que tais práticas possam ser abarcadas pelos tipos penais do estelionato, extorsão e falsidade ideológica, é necessário um esforço dos órgãos da Magistratura, entidades vinculadas à Justiça e também a Ordem dos Advogados do Brasil no sentido de preparar os operadores na identificação dessas práticas e criação de uma jurisprudência robusta quanto às condenações por tais crimes virtuais. Também não se afasta a necessidade do legislador atuar em favor da criação de tipos penais específicos, dada a relevância desses crimes na sociedade contemporânea.
    O catfishing, bem como outros crimes virtuais semelhantes, podem causar danos profundos e capilares em toda a sociedade. Seus efeitos não se limitam aos danos econômicos como os típicos crimes patrimoniais. São práticas com potencial dano psicológico que exigem enfrentamentos de saúde pública e, também, que mudam o nosso comportamento social, a maneira como nos relacionamos enquanto sociedade. As medidas apresentadas não se suplantam, ou seja, elas precisam ser aplicadas de maneira simultânea, urgente e coordenada para combater esse e outros delitos virtuais que são cada vez mais comuns.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

O Tempo é como Deus!

O Tempo não existe:

Ei-lo o tempo todo


A Vida é como Deus.

A vida persiste:

Sabeis que Deus está morto!


O Amor é maior que Deus

O Amor de Deus persiste:

Amai-vos todos! Uns aos outros!


Deus é o Tempo.

Deus é a Vida.

Amor é Amor.

domingo, 15 de outubro de 2023

À MAR

 Só me permito mergulhar nessa paixão pelo oceano. Eu que há muito navego compreendo que há mares mais vastos que todos os amores do mundo. Ainda que eu me lance em aventuras nessas águas, que faça içar às velas sempre e com afinco, que timoneie com destreza e me afeiçoe à nau, não sou marinheiro.

Pois que não sou servente da barca, ou oficial da marinha. Sou antes este esposo voluntário das águas, é o gosto do sal mais aprazível aos meus lábios que a doçura dos beijos. É a brisa marítima  que me beija salobra todas as manhãs, e todas as noites, meu regozijo.

Não tenho amante para escrever cartas, já não sinto a falta de tê-la. Nem sequer me apetece a comida dos portos, os jogos no cais e as mulheres na orla. Declaro-me todos os dias ao oceano através de um mergulhão, uma gaivota. Conto às aves sobre meus sentimentos e, radiantes, elas se atiram à superfície d'água para dizer do meu amor. O mar, grato pela mensagem do meu afeto, lhes retribui com peixes que enchem seus bicos.

Também o mar me alimenta. Também o mar me acaricia, as espumas do mar são minhas espumas. Converso com baleias, edifico corais, leões marinhos são meus animais domésticos, sem que eu tenha que domesticar-los. Essa única exigência me faz o pélago: tão vasto que sou e tão eterno, nada das minhas águas cerceie, restrinja. As águas nos exigem plena liberdade.

Me perguntam: habitas o mar? De pronto respondo:

- O mar é meu hábito!

segunda-feira, 24 de abril de 2023

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Para Re II

 SOU UMA PESSOA QUE SE ENFADONHA RAPIDAMENTE COM TUDO QUE NÃO ESTÁ AOS OLHOS, QUE NÃO SE PODE TOCAR. 

AINDA ASSIM, CONVERSAMOS MEIA HORA AO TELEFONE, TUDO PORQUE UM MACARRÃO SUICIDOU-SE NO CHÃO DA COZINHA.

ALI ESTAVA A BELEZA DA COISA, VEJAM. UMA MASSA QUALQUER, DESCOZIDA, ESTATELADA E DURA NA CERÂMICA. MAS ERA ELA QUEM ME CONTAVA. COMO SE GRANDE COISA MORRERA E, ELA, A CULPADA DO TERRÍVEL ASSASSÍNIO. FALAMOS DO SEU JEITO, SEM JEITO, E LOGO PUSEMO-NOS A DISCORRER SOBRE A RELAÇÃO. 

NOSSO AMOR É COMO UM QUEDA DE PALAVRAS. ELAS VERTEM NA ÂNSIA DE DIZER E ENCONTRAR TERMO CERTO PARA RELATAR A FOME DE ESTARMOS JUNTOS. QUEREMO-NOS COMER, SORVER E ABSORVER. QUEREMOS SENTIR AQUELE AMOR NAS ENTRANHAS. VOMITAR NAUSEANTES OS MESES DE SEPARAÇÃO. ENTÃO, ALIVIADOS, BEIJARMO-NOS.

 A DISTÂNCIA É LÉGUA SEM FIM, QUE PERCORREMOS ABASTECIDOS DA CERTEZA DE UM AMOR QUE ALIMENTA E NÃO SE ESGOTA. O PASSADO? É COMO UM MACARRÃO DESCOZIDO, DURO E SEM LUGAR À CEIA.


EU TE AMO, ELA DISSE. RESPONDI: AMO-TE DO TAMANHO DA NOSSA FOME. EIS QUE AMBOS DORMIRAM SATISFEITOS, DE ESTÔMAGO E CORAÇÃO REPLETOS.

Para Re

 CLAMAM MEU NOME

E IMPRESCÍNDEM DE MIM

COMO CHAMARÃO A MIM

AS TROMBETAS DO HADES.

NÃO SABEM QUE MEUS TÍMPANOS RESSOAM

 E MEUS OUVIDOS AUSCUTAM À CONVOCAÇÃO DELA?

 MEU TEMPO É UM VESTIDO CURTO. 

CABE-ME, MAS ME DEIXA QUASE DESCOBERTO. 

PORTANTO, AGORA, DELEITO-ME DELA.

 E DOS OLHARES DELA. 

E DAS VOZES QUE SAEM DO CORPO DELA.

AH! VEJA COMO DISCURSAM SEUS SEIOS.

 DIZEM: QUERES COLO?

 PREPARO-ME 

COMO SE PREPARA UM DEFUNTO PARA O ESQUIFE! 

QU'ISTO É BELO, POIS PR'ELA NÃO ME DEIXO SANGRAR.

 MEU DECUJO ENCONTRA NELA A PAZ ETERNA.

 MORTO PR'ESTE MUNDO, 

VIVO FELIZ COM ELA.