terça-feira, 27 de agosto de 2019

Em que penso?
Penso naquela brisa, naquele dia
Penso nas andorinhas que voavam
De penas tão negras, que azulavam
Penso nos canários-da-terra
Tão afoitos por ciscar e bicar ao chão
Que não invejavam as andorinhas
Pareciam canários-de-terra
Com perninhas terracota feito raízes
E a cabeça de peninhas amarelo-flor-de-ipê
Penso no barulho da água do rio
Oferta de Iara e oferenda à Iemanjá
Na infinidade de peixes de rio
De água doce, de gestos doces,
Penso na sereia e em pedras voadoras
De pedaços planos, polidos pelo tempo
Que lanço à flor d'água, quicam e são leves
Duras e leves por um instante, como eu
Como andorinhas que migram e são leves.
As pedras beijam a água com doçura
Cinco, seis, as vezes sete beijos de amor
E se deixam afundar. Também mergulho.
Amar é leve, é doce, é uma pedrada.
Em quem penso?
Em ninguém. Penso na brisa.