segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Há um quê de alegria

Em estar desacompanhado

Meu amigo diria:

- Não fiqueis isolado


Eis que ouço dizer ao ego

A voz que me habita:

Se é solidão eu nego, 

É uma estranha forma de vida

sábado, 17 de outubro de 2020

 Sou um naufrágio

Cheguei ao mar

Lancei-me do penhasco

Meu corpo frágil

Desenhou um arco

No peito, na quilha

Havia vida

Captaniei o barco

Lembrei de ti

E voei um pássaro

domingo, 19 de julho de 2020

Aquele que tanto me tirou
Não tomou para si a alegria de viver
Pois ele me viu sucumbir por amor
E me levantar pelo amor d'outros
E me viu me entregar
Sem gozar do mesmo
E me viu partir, cheio das ânsias de voltar
Para partir, derradeiro, desejoso de mim mesmo
E tanto adicionei, preposto e aditivo
Que mesmo em tom de suplício
Dava-me a mim mesmo por querer lhe ser o todo
Mas não me fiz de tolo, fui tudo e mui antes
Meu melhor, primeiro e último amante
De tudo que senti, com sinceridade pueril
E nunca vivi o engano
Fui rei e paisano, coroado no anonimato de viver só
Aquele que nunca se entregou ao pó
Ciente de transcender pelo amor
Cativo de amar e tornar a amar mais que a vida
Fiz da minha despedida um poema sem rima
Sem adeus e cheio de si.

Escrito 19 de julho 2019

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

O tempo é bastante dissimulado
Meio aquém do riso e afim da morte.
O tempo é muito justo com o trabalho
E injusto com os amantes.
É incauto com as promessas.
Unguento da dor profunda,
Cuida para que restem cicatrizes.
É toda a dimensão de ser,
Contudo, sem obrigação de sê-lo.

A London case

Me capturou a lembrança do apartamento
Que habitaremos, num subúrbio londrino
Logo menos.
Me peguei a pensar num cachorro, e num gato
Na cauda dos bichos e do nosso piano, sem cauda.
É um pequeno apartamento londrino.
Eu agora fumo um cachimbo e leio Tolkien,
Os palheiros ficaram todos aqui. Levei o Neruda.
Você se senta e lança uma nota amadeirada
Como o perfume que está na estante,
Nesse instante.
E ressoa pela sala um compositor búlgaro
Que me lembra o Bulgari que está aqui.
É tudo muito sinestésico,
Como sua presença distante, que está em mim.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Poema em vão

Eu gosto tanto dele,
Por ele nada ter.
Ele está tão preocupado
Por não ter, sequer
Preocupação.
Habita nele um rincão de mim
Tanto quanto rebelde
E deveras idiota
Mas tão sincero
Quanto os dentes de criança
Cravados no seio da mãe.
Como cravos dispostos
Dentro o cano do fuzil
É essa coragem pueril,
Que a mim parece senil
E débil, como quisera eu
Ser de novo
Nos braços dele
E nos cabelos compridos dele
E naqueles olhos rasgados
Ver de novo o mundo
E lamber o mundo
Como selo e para sê-lo
Colado naquela displicência
De quem nada tem. (a temer).