sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Poema em vão

Eu gosto tanto dele,
Por ele nada ter.
Ele está tão preocupado
Por não ter, sequer
Preocupação.
Habita nele um rincão de mim
Tanto quanto rebelde
E deveras idiota
Mas tão sincero
Quanto os dentes de criança
Cravados no seio da mãe.
Como cravos dispostos
Dentro o cano do fuzil
É essa coragem pueril,
Que a mim parece senil
E débil, como quisera eu
Ser de novo
Nos braços dele
E nos cabelos compridos dele
E naqueles olhos rasgados
Ver de novo o mundo
E lamber o mundo
Como selo e para sê-lo
Colado naquela displicência
De quem nada tem. (a temer).

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