segunda-feira, 2 de maio de 2022

TRAMA

 A vida é emaranhado de filamentos

Viver nada mais é que tecer;

Morrer é desfazimento de costuras.

Por isso morre-se tanto,

Morre-se todos os dias,

E a vida segue, sempre, por um fio.

Os dias comuns chamar-se-iam

Panos de saco...

Malfadados, tronchos e  chatos

Que se passam ao chão 

Que esfarelam pelo uso e pelo emprego

Que não se contam mais quando manchados

Toda fibra será castigada.

Tantos dias, haja saco!

Ah, o sexo! É meter linha na agulha...

Até coser e bordar outra vida,

Com a mesma intenção de Penélope:

A de não tecer o último ponto.

É o bilro da arte feitor do rendado.

E o amor? Tece a lã.

Na mesma roca em que prepara o sudário.