quarta-feira, 24 de agosto de 2022

STELLA

 Anoitecer-me agora é tão triste

O alvorecer dos meus dias é tão pálido

Dar-me outro suspiro parece inválido

Pois sequer meu corpo permanece em riste


Eis que no céu desponta uma estrela

Que brilha e reluz com tons de ciano

Tomado de forças eu danço ao piano 

O firmamento é outro por simplesmente havê-la.


Céu, infinito teto celeste!

Que Luz fria e divina vem dela?

Esse Lumiar que agora me veste!


Faz-me lembrar da minha prequela

Um amor tenro, amor inconteste

Saudade que tenho, luminosa Stella!

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

 É certo que as coisas nascem com um aspecto derradeiro. Todo recém-nascido, a despeito de um sorriso pueril e uma boca coçosa de dentes, guarda no corpo uma pinta de morte. Uma marca de brasa na qual Deus queima formigas, como criança no parque. Digamos então que a morte é uma marca de nascença.

Ama-se demais e em verdade quão maior é essa certeza do fim. Os olhos que se cruzam são dois, esquerdo e direito. Um encerra o vime da lembrança infinita, do elo poético, da procura incansável. O outro carrega a cisma, a navalha e a sentença capital. O amor é sentença de morte daqueles há muito encarcerados,  que beijam e desejam o laço da forca. Amam mais e mais libertos os (ex)clausurados que, animados pela natural destruição das coisas, fogem do cativeiro rumo ao penhasco. E voam, verdadeiramente voam.