É certo que as coisas nascem com um aspecto derradeiro. Todo recém-nascido, a despeito de um sorriso pueril e uma boca coçosa de dentes, guarda no corpo uma pinta de morte. Uma marca de brasa na qual Deus queima formigas, como criança no parque. Digamos então que a morte é uma marca de nascença.
Ama-se demais e em verdade quão maior é essa certeza do fim. Os olhos que se cruzam são dois, esquerdo e direito. Um encerra o vime da lembrança infinita, do elo poético, da procura incansável. O outro carrega a cisma, a navalha e a sentença capital. O amor é sentença de morte daqueles há muito encarcerados, que beijam e desejam o laço da forca. Amam mais e mais libertos os (ex)clausurados que, animados pela natural destruição das coisas, fogem do cativeiro rumo ao penhasco. E voam, verdadeiramente voam.

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