terça-feira, 6 de janeiro de 2009
De tudo na vida...
De todo momento que passou, de cada simples suspiro ou eloqüentes gritos de euforia, pouco sobra que não seja poeira de pensamento. Talvez sobre as noites de amor, porque é esse sentimento, o qual nem temos a certeza de ser anjo ou mostro, que se faz essência da vida. Pouco importa se sobra o amor. Amor é alcool volátil, doce, algo de que se pode usufruir na eternidade da ausência do corpo. Mas não me importa a eternidade. Importa a você? Não. A eternidade não é pra se compreender, assim como o amor. Não quero saber o que há de me sustentar quando já sou morto e a morte já me é fraterna. Quero saber o que sobra ainda no fim da vida. Bem naquele último momento, em que a dor é tão forte quanto a dor sincera da criança que perde seu cão.Descobri o que sobra ao fim da vida. É pedra torta, mas ainda assim pedra preciosa. Não é grande o suficiente para te esmagar o peito e tornar breve o teu fim. Não é areia que para que possas engolir e mentir para si mesmo que ela nunca existiu. É de tamanho imaginável, quase uma ameixa. Nem tão doce, nem tão amarga. Sabemos que não é uma pedra de fato. Digo que é a saudade, mas pouco importava explicitá-la. Todo mundo a de ter essa pedra consigo, e reconhecê-la uma vez na vida. Lembre-se: toda vez que a saudade te obstruir a garganta então morrerás em breve. O mais triste de tudo é que morrerás mais de uma vez.Estranho que de todos os sentimentos aos quais o homem inutilmente tenta dar nomes, só a saudade nos acompanha no fim da vida. E só o amor depois dela. O sentir falta é a despedida o final da apresentação é a única coisa que importa. Nenhum ator, por maior que seja, faz questão dese apresentar ao público antes da peça. Quando se fecha a cortina, o mundo é outro, e o grande astro contempla o público, o teatro, o espelho. Assim é a saudade. A cortina que se abre para contemplarmos uma vida. A vida que já não podemos mais representar.Deixamos uma vida quando já não podemos beijar a mulher que amamos. E nunca amarei outra mulher. Depois dela, morrerei e só restaurá saudade. A ameixa agora é doce. Tem o gosto do veludo dos pêssegos, dos lábios. Também deixamos a vida quando perdemos os amigos. Amarga ameixa que têm gosto das barras de ferro, das lágrimas de tristeza. E dessas vezes que sutraimo-nos do viver, eis a saudade. Se já não pode viver, que se reviva falsamente na saudade. E ela se faz da lembrança. É metamórfica, pode ser pêssego e ser lábio. Pode ser lágrima se quizer. E pode ser o sorvete, o parque, e pode ser a mãe, a família. Em sua maior expressão, tudo pode se tornar a saudade. Só não se torna real.Tenho saudade. Tanta saudade que poderia jurar que já morri todas as mortes do mundo.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Ae Carlos..
ResponderExcluirTexto perfeito. Parabéns!
Ah, só uma pequena dúvida... Você escreveu sob inspiração de Dom Casmurro? Algumas passagens fizeram-me lembrar do capítulo no qual o tenor italiano compara a vida à uma peça de Teatro.
Grande Abraço, irmão!
Parabéns Filho.
ResponderExcluira semente que plantei deu frutos de sabedoria.
Extranho como é o destino, hoje vc mora em Franca
a mesma cidade em que nasci.
Mesmo distantes esse tempo todo, nunca deixei de pensar e torcer por vc. TE AMO.