Existia uma praia e uma criança sentada na areia. A criança era eu. A praia talvez fosse ilusão. Tinha, nas mãos pequenas e lívidas de inocência, um bom punhado de areia branca. Dediquei minhas mãos e outros tantos grãos de areia ao trabalho árduo de construir um castelo. O vento me ensinava como modelar muros, torres e abóbadas. Me ensinava a modelar a experiência e o caráter.
Demorei em torno de uma década para terminar meu projeto. Era forte o castelo, bonito e rico em detalhes. Alguns pontos pareciam tortos e algumas rachaduras eram visíveis, tudo para revelar a humanidade de seu construtor. Mas era um castelo bem forte. Poderia-se jurar que ali habitavam reis e rainhas, uma corte inteira. Damas alvas vestindo conchas do mar. Homens de sal e sílica montados em seus cavalos-marinhos. Era, ainda, um vivo castelo.
Levantei-me do chão de praia, levei uma mão ao encontro da outra. Beijaram-se as palmas, já maiores e nem tão puras. Era sinal de trabalho cumprido. Mas somos construtores e nada sabemos fazer que não seja construir. Caminhei até o mar. Não sei ao certo se fui mais eu quem o encontrou, ou mais as ondas que buscaram meus pés. Dobrei meu tronco e, de cabeça baixa, fui construindo um canal que ligava as aguas revoltosas ao castelo. Em pouco tempo, tudo fora tragado, até mesmo o telhado da torre mais alta.Não devemos ter o mar como inimigo. Seu trabalho é apenas dar novos projetos a velhos engenheiros. Quando sem o mar, aí é que padecemos.
Quando findados todos os edifícios, tive saudade dos seus prováveis habitantes. Chorava pela ausência do rei e sua barba, da rainha e sua beleza escondida em rugas de ternura. Mas o rei continuaria seu governo em algum lugar do oceano. A rainha ainda seria bela, mesmo diluída pelos sete mares. Percebi que minhas lágrimas eram também água do mar. Findei meu choro e o vento secou as partes mais salientes da minha face. Elas revelavam, logo abaixo, um sorriso sincero. Começaria tudo outra vez.
Fui andando pela praia, procurando um lugar que fosse bom piso para meus sonhos. Tive ambição de construir castelos maiores, a simplicidade de construir apenas alguns cômodos. O vento sempre me ajudou a fazê-los. A fazer a mim mesmo. Ainda ergo sonhos para depois destruí-los. Essa mutabilidade da vida nos faz evoluir, aprender novas técnicas. Só espero que um dia, já cansado dessa minha profissão, venha o mar me buscar. Encontrarei o rei, a rainha e toda a corte. Encontrarei tudo que um dia pude lapidar e tudo que me fez tão feliz.
Ando pela praia e sento quando possível. Caminho pela vida e me traduzo em sentimentos a cada instante que passa.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
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