Pedrinho era criador de galinhas. Certa feita, após uma caça bem executada e um plano de vôo desastroso, uma rapina deixou cair dentro do galinheiro a sua próxima refeição: um belo filhote de cisne.
E o cisnezinho passou a viver entre os demais. Afeiçoou-se a Pedrinho de tal maneira que sempre andavam juntos nas esporádicas visitas ao quintal das aves. Pedrinho também tinha um carinho especial por aquela ave companheira, porém duvidando de que ali pudesse nascer algo que não fosse galinha, nunca percebeu a ave como mais bela, de maior envergadura, de maior valor.
Próximo ao Natal, vieram-lhe visitar a granja. Pedrinho, que tantas aves tinha em seu quintal, falou ao comprador:
- Escolha qualquer ave e tome para si. Sei bem da qualidade das minhas galinhas.
- E todas tem o mesmo valor? - disse o cliente, um famoso criador de caprinos, vindo de muitas léguas.
- É escolher uma e pagar-me a justa quantia de dois mil réis.
Como criador de cabras e bodes, pouco sabia de galinhas. Deixou-se tomar pela intuição e logo pôs os olhos no jovem cisne, visivelmente diferente dos demais. Ainda que não o soubesse uma ave ornamental, companheira e de grande valor, seus olhos e coração estavam abertos às diferenças que o tornavam especial.
- Levarei o exemplar pescoçudo que percorre teus passos ao caminhar.
A escolha acertara o ego de Pedrinho como um tiro de carabina. Era a "galinha" que mais gostava, afinal. Porém, orgulhoso, não se opôs à própria palavra lançada e deixou que aquele cliente seguisse o ponteiro vermelho da bússola, rumo a suas terras, com o cisne no balaio.
Era tanto sofrimento também no coração da ave que seu habitual gorjear transformou-se no que chamamos canto do cisne. Embora fosse aquele um canto de morte, eregiu seu pescoço alongado, passando a cabeça por entre o vime e, assim como quando escapou das garras do pedrador, muito antes, desvencilhou-se da tristeza mortal e contemplou o caminho a frente.
Pedrinho ouviu de longe a melodia e percebeu sua estupidez, na justa medida que o novo proprietário regozijava-se pela sábia escolha. Chegando ao destino, deu célebre tratamento ao cisne. Fez-lhe senhor de uma ampla lagoa e juntos passavam as tardes entre quirelas e pescaria. Jurou para si que não trocaria o cisne branco, por quem nutria imensurável admiração, nem pela galinha dos ovos de ouro.
domingo, 7 de julho de 2019
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